O revisor não erra sozinho

Vamos refletir brevemente sobre o fenômeno das más revisões e como as responsabilidades delas são compartilhadas ao longo de toda a cadeia editorial – e até mesmo pela rede mais ampla, constituída pelo mercado de revisão e editoração em geral, assim como pela pressão dos autores por tempo e por preço. Se é verdade que o revisor está longe de ser o único a ter o mérito ao publicar uma obra, ao dar à luz um texto, ele também não é o único culpado por uma edição ruim e nem mesmo por revisão mal feita. O revisor não está sozinho – especialmente quando ele está errado.
Evidentemente que tudo, até mesmo nada, é melhor que uma revisão ruim. Em todos os casos, a atenção do autor e do leitor concentra-se, com uma análise implacável, mas necessária, nos erros de revisão presentes nos seus textos mal revisados: grande número de omissões, inovações terminológicas, imprecisões, erros estruturais que subsistam leva a concluir que às vezes, o resultado final não tem nada a ver com o original e, muito menos, com o produto desejado. A reflexão sobre quem é o “culpado” é amarga, mas obrigatória: porque uma revisão malfeita, quando é decididamente incorreta, falha, intromissiva, corre o risco de não apenas perverter as intenções do texto original, mas, acima de tudo, “anestesiar” o leitor menos treinado, empurrando-o para o hábito da leitura precipitada, fastidiosa, descuidada e da qual a crítica incidirá sobre o autor.
Revisão de tese e dissertação bem feita é na Keimelion.
O erro de revisão pode ser devido a
vários fatores. O revisor é apenas
um dos sujeitos comprometidos
com a qualidade.
Existem editores que confiam o trabalho a “revisores” sem verificar sua capacidade com antecedência, certamente, para economizar dinheiro; os ditos revisores muitas vezes não são suficientemente competentes, seria necessária supervisão macroscópica – e treinamento acurando – antes de lhes ser confiado um mandato; ainda existem editoras que forçam o revisor a trabalhar em tempos muito escassos e em condições econômicas proibitivas; sobretudo, existe o departamento de marketing que agora conta mais que a equipe editorial na elaboração de um plano de publicações que deveria ser coerente – mas não é, voltado sempre à urgente preparação do próximo best-seller ou livro eletrônico, algumas vezes sem o mínimo de seriedade editorial e respeito para com o público ou os profissionais envolvidos.
A origem do problema seria, portanto, em última análise, uma questão de custos e de maximização de lucros: a publicação de livros é, principalmente em nosso pais, uma operação deficitária e há a tendência de economizar em tudo: portanto, o trabalho de revisores, como (frequentemente) o de tradutores, é precário, mal remunerado e mal reconhecido. No entanto, todas essas habilidades requerem (tanto para serem aprendidas quanto para serem exercidas) tempo, preparação e comprometimento, coisas que devem ser adequadamente recompensadas.
Uma visão menos míope, que se concentrasse no sucesso a longo prazo, deveria incluir essa realidade: porque um mercado editorial que faz uso de bons profissionais e em que há tempo e maneira de criar uma colaboração virtuosa entre todos seria aquele mercado em que o texto não corresse o risco de se afogar no esquecimento a que se destinam produtos de baixa qualidade.
São os próprios revisores (assim como os outros sujeitos mencionados da malha editorial) que deveriam demonstrar o quanto suas habilidades profissionais valem e o quanto ninguém está livre de culpa e mérito na linha de produção e publicação do texto; os próprios revisores devem ser invocados para sugerir maneiras de melhorar a situação: assumir a responsabilidade de recusar um trabalho que não se pode realizar a contento, a cada nova demanda da agência ou cliente; exigir salários justos ou remunerações adequadas pelos serviços; criar uma rede de colaboradores atenciosos e preparados, dentro e fora dos escritórios editoriais.
A solução que viria dos revisores não é surpreendente: o fato de o trabalho do revisor ser tão maltratado talvez seja devido à pouca visibilidade; assim, pouco se fala em revisão e pouco é revisado, muito pouco é revisado adequadamente, e a bem pouca visibilidade sempre significa controle deficiente das posições de mercado. Em vez disso, é precisamente demandando um controle adequado (sobre o trabalho de sua categoria e complementares) que os revisores devem exigir – principalmente pela manutenção de valores de remuneração compatíveis com a formação e experiência de cada um: é necessário compartilhar responsabilidades e satisfações com outros profissionais, isso significa abandonar o mito romântico que quer os revisores isolados do mundo lutando com seu texto (e enfrentando sozinhos a pressão das editoras ou dos clientes); sinta-se parte de um mercado editorial saudável, onde você pode finalmente ser ouvido e levado a sério.
As “boas práticas” de edição precisam, portanto, que os sujeitos envolvidos no processo (os revisores em primeiro lugar!) enfatizem a importância da estreita colaboração entre os profissionais do texto e a necessidade de o editor fazer escolhas de qualidade, baseadas não apenas no critério da melhor oferta, mas na verificação de habilidades, nas disponibilidades de tempo e na formação e experiência de cada profissional em função da exigência qualitativa demandada pelo texto.

Atitudes como essas (seguidas, esperamos, por resultados semelhantes), além de retirar nosso trabalho do anonimato, talvez possam levar a críticas cuidadosas e construtivas das revisões de textos, observados nelas os méritos bem mais que os defeitos – sabidamente mais visíveis até hoje.
Adaptado de Ronca.

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